quinta-feira, 24 de outubro de 2013

XIV - Repoiése



Como acontece isso, esse começo que é fim?
O que me faz me travar desse jeito afinal?
Que mudança é essa que agora se opera em mim,
Que me tira a expressão de cada breve sinal?

Que sinto, sinto! Há poesia e o que dizer.
A sinto fluir por meu corpo, sem poder.
Me escapam palavras e um verso
e faltam as velhas imagens, o nexo.

Eu percebo esse mote, mas não posso seguir
Sinto com força, sinto a mais breve das brisas 
Sinto a luz cegar de tão clara e o som ferir.
Eu percebo o segredo... são telas vazias.

Alexandrinos tolos agora me saem.
 Um molde tolo em que nunca pude escrever
E p'ra quê? Sepulcros caiados... Nada valem.
Só tento provar p'ra mim que ainda posso fazer...

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Agora chega... Melhor que não me importe. De que vale escrever, lutar, ou mesmo temer, se o mais gostoso é ser. Pensar com sentidos, com cheiro do mundo e vento no ouvido. Para que hesitar afinal? Talvez eu não possa mais com meu lápis... Mas em meu corpo vivo meu bem e meu mal.

Aqui sei o sabor do meio e a transição corpo ao nada. Esse nada Tudo. Na sublimação em que perco minha vereda para achar o meu poema. Da paixão à liberdade. Sendo esse eu-Amor-sema.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

XIII - Três da tarde




Olha o dia ai fora, olha e demora.
'Tá batendo uma luz engraçada esses dias,
Uma luz estranha essas horas.

Consegue sentir também? Você pode ouvir?
Fica esse bafo gelado soprando o pescoço
E essa voz, canções de partir.

Não é nada demais, pode nem ser.
Mas de repente, do nada bateu um medo...
Achei melhor ligar para você.

Você ainda sabe o meu número, deve saber.
Mas vai que você, sei lá, não se lembra.
Hoje em dia é tão fácil esquecer.

Talvez você quisesse dizer que lembrou
E deu um sorriso gostoso em seguida,
Com a foto que hoje cedo encontrou.

E teve vontade de mandar um oi
E conversar como a gente fazia.
Sem assunto, ou pensar no que foi.

Só os dois e a tarde inteira.
Que gostoso que era falar de nada.
Falar e rir de cada besteira...

Que ficaram chatas as tardes agora.
Hoje às três da tarde faz madrugada,
Hoje só existe o mundo lá fora.

Falar que um dia você quis me ligar,
Só falar p'ra deixar de bobagem.
Eram 2:20h, não chegou a chamar.

Falar daquela viagem, que a unha quebrou.
Daquela piada que ouviu no trabalho.
Estranhar como o tempo mudou.

Perguntar se eu senti esse frio,
Essa luz engraçada de agora,
Às três da tarde, esse vazio

Que não vai embora...
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terça-feira, 1 de outubro de 2013

XII - De costas para si


Sei que às vezes me dói aqui dentro.
Muitas vezes não sei dizer o porquê.
Tantas outras, escondo o motivo.
Em algumas, sou eu que não quer ver.

Tanto pedi, tantas saídas busquei.
Quantas vezes errei em vão?
Tantas e tantas vezes, já sem conta.
Tanto pensei e pedi perdão.

E por quê? Para quem pedir,
Quando só a mim mesmo fiz,
Quando apenas eu quis crer?

Até onde a fé é razão para seguir?
Qual o limite entre ela e o que eu quis?
Até onde sou eu quando cessa o querer?


quarta-feira, 24 de julho de 2013

XI - Partindo


 


"De repente, não mais que de repente" (Vinícius de Moraes)

Como foi que chegamos aqui?
Quando foi que chegou esta hora?
Quando foi que te fazer sorrir
Terminou com você indo embora?

Tantas vezes falamos,
Tanto traçamos planos...
Lembranças são o que sou
E só isso nos restou.

Quando foi diferente, então?
Hoje cada palavra é em vão
Tantas soluções, práticas que são
Quando, na prática, não há solução.

O que responder quando você perguntou 
o que eu queria para mim,
Quando só sabia que te queria
E que esta pergunta era o prenúncio do fim?


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Um dos poetas que mais admiro foi Vinícius de Moraes, que por diversas e incontáveis vezes li. Neste mês, faz 33 anos de seu falecimento. Fica aqui minha homenagem, inspirada no memorável "Soneto à Separação", que nem se compara a estas mal traçadas linhas


terça-feira, 9 de julho de 2013

X - Réveillon



"...O que fazer quando pouco faz sentido? O próprio sentido de haver sentido se perde. O que fazer quando as máscaras já não servem, quando está flagrante a verdade pelas frestas dos olhos?  Quando se sente o completo vazio de ser,  o que fazer quando o que se queria é tudo o que não deveria e, de fato, não é?


Tudo o que sobra são lembranças e essa ressaca que sequer embala o corpo. Há o amargo, há o cansaço.Há um rompimento lá dentro. Há o barulho que faz.



O núcleo é morno, o mundo aqui fora esfria. E o final de tarde que antes era uma sensação de completude, hoje não passa do prenúncio de mais uma noite escura.



O que se fazer quando, daquelas noites de verão, restou apenas você, que sequer acha mais lugar na pequena existência do dia, quanto mais na imensidão desse  céu profundo, no qual inutilmente se  busca resposta?..."

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Esse é um trecho de um texto maior, que gosto em particular pelas imagens fixadas. Fica aí para registro rsrs.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

IX - De Repente




"Pois não chegam a vir à boca os tiros. 
Dos combates que vão dentro no peito."
(Gregório de Matos)
 
De repente, você aprende a representar.
E, supostamente, está tudo bem.
De repente você aprende a mentir,
Ainda que no começo não engane ninguém.


Mas depois você melhora e vai de tal forma
Que nem mesmo você diria.
Depois que se passam as horas, ignora
Aquilo que só você sabia.


De repente, se lembra como é andar...
E que ser feliz é  só um jeito de caminhar.

Lembra que o que subsiste é paz
E que esta é uma forma de se equilibrar.


De repente, a chuva passou
E você consegue ver o sol de novo
De repente, o mundo mudou...


Lá em cima está o Sol,
Ainda que às vezes o tempo feche...


De repente,  toda a verdade
Esta mais uma vez sobre a mesa
E você consegue enxergar
Que a tempestade teve também sua beleza...


terça-feira, 11 de junho de 2013

VIII - Quarto Escuro

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEix9sKc42j4xUv_Qp12igj4GwABxpcTYU-__3V0U_WSAaSCwi2YWQ-0ahMi8DDRBezSwgsYmRps040-hON5MPq6vDWeZ5v45dNVvrxmWKSFnJgS1llQjZS-wX8PTsWfjjWC41tYbHopRkg/s400/dark_room_1024.jpg 

Companheira fiel, minha boa e ingrata amiga.
Quantas noites se foram e quantas ainda virão?
Você entra em meu quarto, puxa o lençol da cama,
Se arrasta em meu corpo e me deixa no chão.

Depois levanta e se senta à beirada,
Me olha e repousa com jeito de decisão.
Acarinha minhas costas com suas mãos frias
E, apenas para ficar, me engana, me pede perdão.

Por que eu ainda te deixo entrar?
Por que eu ainda te abro a porta?
Enquanto você estiver, ela não volta...

Permanece esse vazio de mim, do que me falta.
Permanece ainda esse quarto escuro.
Somos só eu e a Dor nessa hora morta.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

VII ou "Uma última valsa"





“Mister Cellophane, should have been my name”
(Chicago)

Quem bate? Quem está ai fora?
Há alguém ai, de qualquer forma?

O que são esses sons que ouço,
O que é essa luz que às vezes vejo,
Que, tão vívidos e nítidos, ante a solidão,
Tornam-se breves lampejos?

Esqueci como se escreve em rimas, com métricas.
Às vezes começo bem, mas tudo se perde.
Às vezes pareço forte, eu sei, e muitas vezes sou.
Às vezes parece apenas indiferença... E que fim levou?

O que restou daquela alegria, pureza que eu tinha?
O que restou do amor que eu sentia?
Hoje , Amor, você me atravessa, vê através de mim.

Hoje, está de visita apenas, se é que é você mesmo.
Como pode ser você, Amor, se em nada corresponde ao que já fora?
Há paz? Sim... Mas uma paz movente. Nada acaba e nada afeta.
Tudo passa e nada muda. Só há estática... E alegria abjeta.

Já acreditei ser você, um dia, parte de mim, inseparável.
Já pensei ser impossível de outra forma ser.
Já hoje eu quase nem sinto mais, cores mornas.
E eu não sei nem dizer se é bom ou ruim, apenas consigo ver...

Será esse o produto de mim que me resta?
Serei eu esse sub-resto da festa?
Serei eu esse uso surdo e rouco de mim
E será que eu me importo tão pouco assim?

Não sei nem dizer o que me causa.
Não sei se é falta de costume à mudança.
Talvez, amor, de certezas à fé, seja essa a valsa

E essa troca de pares a nossa verdadeira dança...


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Esse texto é razoavelmente antigo, portanto, perdoem a diferença brutal de estilo, ok?



VI ou "Essência"




"Do horizonte dos eventos,
da margem existente no momento incessante,
eu observo.
E a tensão à superfície da margem
É a espera que jamais termina,

Mesmo ante a permanência cadavérica dos fatos..."



quarta-feira, 5 de junho de 2013

V


1600x1200 Alone tree

"If a tree falls in a forest and no one is around to hear it, does it make a sound?"
(Autor desconhecido)



Sou nada sem você.
Mas, já parou p'ra pensar
O quanto do nada você não vê?

Há um nada profundo lá fora
Que você, por certo, ignora,
Que você, sequer, vai perceber.

Há o nada, mas só porque você não quer ver.
Há mais estrada, caminhos, que percorrer,
Que levam a lugares melhores,
Que, sequer, levam até você.

 Há um nada que existe além de você
Que se sublima mesmo sem ver
Há um nada que só você não quer ver. 

IV - Passos apenas


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É engraçada a sensação. Certo calor que percorre minha derme, que esquenta ouvidos e rosto. Como é engraçado o sorriso que sai, e como fácil ele sai. Solto.  O sentido que tudo faz. Como os minutos são contados em metros, pautados pela distância.

Como é boa a sensação que causa: tudo tão diferente sempre. E tão diferentes é tentar ler cada nota de rodapé, cada entrelinha. Jogando cartas com o acaso... Não saber onde olhar às vezes, quais gestos usar e quando. E como tem sido tentar e sentir. Sentir pele, beijo, língua, cheiro, cabelo. Sorriso em pares, sorrir de jeito espontâneo.

Engraçado como o novo tem sido como se sempre fora.

Como é engraçado e estranho medir o vazio agora em metros, quilômetros, bem como a graça das coisas. Como é curioso medir a luz dos lugares em léguas. A certa distância, tem havido apenas ameno e tons de cinza.

Como tem sido bom sincronizar passos... Diversão boba, com devaneios de trapézio. E como são passos apenas, depois.

Como tem me divertido os “serás”, até. Se volta, se quer, se espera... Que pensamento será?

Por hora, há espera e, na espera, essa coisa gostosa de esperar tanto tempo só para ver um sorriso.