quinta-feira, 6 de maio de 2010

III ou "As cordas"

No vibro das cordas pende minha razão
Que em cada singular enlace
Faz de minha alma catarze e cedição.

Épico tecido, tal qual Penélope
O perfaço e descosturo,
Pois em seu fim reside o meu próprio, o escuro.

Em cada doce som, segredo meu espírito,
Minhas faces mais íntimas, meus desejos.
Rasgo meu coração, profano rito.

Se busco o silêncio,
Nele também sou música.
Harmonizo a vida que em cada célula fica.

Minhas asas, parte integrante de mim
Minha boca, meus braços, meu pulmão,
Consolo, alívio, minha doce solidão.

II



Às vezes o sentimento de incapacidade,
De vertigem diante do papel
É quase o mesmo de observar o céu à noite.

Você deita e olha para cima
E não há mais nada a ser olhado.
É negro e profundo.

E depois de certo tempo,
A ideia que se tem é a de queda,
De que a qualquer momento

Mergulha-se no papel,
Perde-se o eixo e danço com as estrelas.

I



É noite
A chuva cai, assoita
O chão grita

E o primeiro impuso
É de fúria
Fúria que venta
Através de meus vasos,meus poros.
E lá fora ecoa um urro de sangue.

Nada é triste, mas vermelho
E negro, como apenas a tempestade.
Negro como apenas o negro mais profundo da sombra

E cinza... cinza, frio e só.

Os ouvidos rasgam,
Os olhos cegam,
A boca seca...
E o tempo chora.

É noite.
A chuva cai, chorosa.
O chão suspira.

Ai! Saudades das manhãs... apenas...